Dia arrastado de ressaca, folheio a revista 6ª do Diário de noticias e deparo-me com este texto:
O Namorado
Sento-me à janela a pensar. É este vidro que me separa da chuva. É esta chuva que separa do mundo. E já não sei o que é sentir o vento fresco bater na cara. Desde que vivo nesta casa, com ela, que não sinto o cheiro a terra molhada. Não tenho fome. A prisão em que ela me tem revolta-me o estômago. Mas talvez seja eu que me prendo a ela. Apesar do ódio, apesar do asco por aquela pele oleosa e vermelha. Na verdade ela é muito bonita. Quando a conheci não sabia como ela era. Via só a rapariga bonita, os cabelos negros, os olhos claros. Pouco tempo depois de nos começarmos a amar, vim viver com ela. Assustei-me com o estado da casa. O pó de meses, não me admirava se de anos, acumulava-se em todos os móveis. Bolas de cotão moviam-se pelo chão, ao ritmo dos nossos passos. Mas eu limpava, e tudo continuava sujo. Como se fosse um estado de espírito da casa. Ela também se deixava ficar a dormitar, todo o dia, ora sobre a cama, ora estendida no sofá. E a beleza dela ia-se afogando num cheiro a sujidade humana, a cansaço extremo.
Quando fazíamos amor, ela olhava-me, e algo dentro dos olhos dela me parecia vivo. Então eu tinha esperança. Ela andava cansada, mas quando recuperasse as energias ia ser só mais uma rapariga normal. E eu tinha vontade de fugir. Mas ia ficando, adormecendo ao lado dela. A primeira vez que eu a vi fazer aquilo, senti o mundo a tremer debaixo dos meus pés. Eu tinha acabado de entrar na cozinha para fazer o jantar e ela estava sentada no chão. Tinha um homem deitado ao lado dela. No peito dele, na camisa branca, viam-se manchas de sangue. Pétalas de rosa de um vermelho muito escuro que se desenhava no tecido branco. Com uma faca ela ia furando a carne. Tinha vida dentro dos olhos, como quando fazíamos amor.
Não fugi, não disse nada. Fui fazer o jantar e esperei que ela se fartasse de estar ali no chão regado de sangue. Enquanto ela tomava banho puxei o homem pelos braços e levei-o para o quintal. Não demorou muito a enterrar porque a terra estava húmida. Continuo a enterrar todas as pessoas que ela mata. Não gosto dela. Não gosto de fazer amor com o corpo dela. Mas estou preso. Não sei que linha inquebrável é esta que nos liga. É este vidro que me separa do mundo. É esta chuva que me separa de mim.
Brutal...
Impossível ficar indiferente a este texto. Fenomenalmente bem escrito e de uma intensidade arrepiante. Que raça!
E pensar que foi escrito pela Liliana Moita, 18 anos, estudante de Ponte de Sor.
sexta-feira, junho 23, 2006
quarta-feira, junho 14, 2006
O mundo aldrabado

Um texto do Pedro Mexia no seu blog, Estado civil:
Eis um dos muitos motivos pelos quais eu gosto tanto de blogues. Um tipo passa o ano a ouvir frases como «Mas custa. Não se fode». E nos jornais e nas revistas nada, nadinha, nem traço disso, nem vestígios dessa realidade, apenas revistas femininas, revistas masculinas, maminhas, modelos, namorados no metro, publicidade, a mui trombeteada revolução sexual, avanço nos costumes, desde 1974 que não sei quê, a Merche, os ginásios, os umbigos, as discotecas, gente disponível, sem preconceitos, sociedade desinibida, segundo um estudo do ICS, segundo um estudo da Católica, segundo o Miguel Vale de Almeida, segundo a conferência episcopal, o hedonismo isto a civilização do corpo aquilo o Giddens aqueloutro. Nos jornais e nas revistas apenas isso, o chinfrim do mundo aldrabado e sem vergonha da sua aldrabice. Haja blogues que contem a vida como ela também é porque a vivemos ou ouvimos contada: «Mas custa. Não se fode».
segunda-feira, maio 22, 2006
Paul Auster escreve a dada altura no seu último livro, "Brooklin Follies":
"Todo o homem contém em si vários homens, de maneira que nós - ou enfim, a maior parte de nós- andamos sempre a saltar de personalidade em personalidade sem nunca chegarmos a saber quem realmente somos."
Disse ele, e disse muito bem.
E assim começo um novo blog..
Um blog que traduz a minha qualidade ociosa de espectador. Confessado exercício de apologia à minha faceta de eterno aprendiz e insaciável consumidor da genialidade alheia. Fase intermédia para atingir uma mais nobre posição de criador, e personagem participativa, que irei tentar explorar o mais possível com pequenas intervenções pessoais; as quais espero virem a assumir uma frequência crescente ao longo do tempo.
Uma amiga manda-me um sms dizendo que "Forever Young" é uma canção foleira.
O tanas. Aos 33 anos, eu acho que é mais que uma canção: é um documentário. Um documentário inesquecível.
A letra é Wordsworth do melhor. O romântico inglês escreveu, cheio de optimismo melancólico:
That though the radiance which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendor in the grass, of glory in the flower
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
Os alemães com brilhantina, mais cépticos, traduzem para as massas:
Let's dance in style, lets dance for a while
Heaven can wait we're only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?
Let us die young or let us live forever
We don't have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music's for the sad men
Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the sun
Praising our leaders we're getting in tune
The music's played by the mad men
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever? Forever young
Some are like water, some are like the heat
Some are a melody and some are the beat
Sooner or later they all will be gone
Why don't they stay young
It's so hard to get old without a cause
I don't want to perish like a fading horse
Youth's like diamonds in the sun
And diamonds are forever
So many adventures couldn't happen today
So many songs we forgot to play
So many dreams swinging out of the blue
We let them come true
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young.
E eles têm uma coisa que Wordsworth não tinha: uns sintetizadores épicos do catano. O que somado dá uma canção sublime, fantasmática, de uma tristeza inescapável como um céu de chumbo. Que isto venha de uns gajos banais da vasta legião synth-pop é estranho e talvez incompreensível; mas foleiro é que isto não é. Excepto na medida em que as nossas vidas são altamente foleiras.
Encontrei este texto no estado civil.
O tanas. Aos 33 anos, eu acho que é mais que uma canção: é um documentário. Um documentário inesquecível.
A letra é Wordsworth do melhor. O romântico inglês escreveu, cheio de optimismo melancólico:
That though the radiance which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendor in the grass, of glory in the flower
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
Os alemães com brilhantina, mais cépticos, traduzem para as massas:
Let's dance in style, lets dance for a while
Heaven can wait we're only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?
Let us die young or let us live forever
We don't have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music's for the sad men
Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the sun
Praising our leaders we're getting in tune
The music's played by the mad men
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever? Forever young
Some are like water, some are like the heat
Some are a melody and some are the beat
Sooner or later they all will be gone
Why don't they stay young
It's so hard to get old without a cause
I don't want to perish like a fading horse
Youth's like diamonds in the sun
And diamonds are forever
So many adventures couldn't happen today
So many songs we forgot to play
So many dreams swinging out of the blue
We let them come true
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young.
E eles têm uma coisa que Wordsworth não tinha: uns sintetizadores épicos do catano. O que somado dá uma canção sublime, fantasmática, de uma tristeza inescapável como um céu de chumbo. Que isto venha de uns gajos banais da vasta legião synth-pop é estranho e talvez incompreensível; mas foleiro é que isto não é. Excepto na medida em que as nossas vidas são altamente foleiras.
Encontrei este texto no estado civil.
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